terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Grandes Clássicos: A Era do Azul em Manchester


Se eu fosse um garoto de 121 anos com dentes ruins e amante da cerveja escura, que vestia azul em plena cidade dos Diabos Vermelhos, seria um garoto apaixonado e, talvez, lá no fundo, um pouco frustrado. Teria visto grandes partidas de futebol serem travadas em estádios históricos, tenham sido acanhados ou suntuosos. Teria visto golaços e defesas inacreditáveis, brigas e taças sendo erguidas, erros dramáticos de árbitros ou acertos odiados.

Maine Road, palco de um City fraco
Enfim, teria vivido o Derby Manchester e seus 161 jogos do lado que mais sofreu.

Teria ficado bem empolgado gritando e berrando com os 218 gols do City. Por outro lado, choraria ou olharia zangado para o juiz as 240 vezes em que vi um jogador de camisa vermelha comemorar um tento.
City of Manchester - Símbolo do dinheiro azul
Teria vivido anos inglórios, sendo obrigado a sentir junto à brisa gelada de inverno que endurece os ossos, o azedo sabor da torcida rival comemorando e entoando a plenos pulmões em nosso estádio. Ao longo do tempo, teria me empolgado ao vestir a camisa azul-clara e sentiria orgulho ao ver a águia de língua afiada ostentar com suas enormes asas o brasão do City. No entanto, sentado nas cadeiras da minha própria arquibancada, sofreria mais do que vibraria.

Seja no Hyde Road, Maine Road ou no novinho em folha City of Manchester - agora Etihad Stadium -, amargaria mais derrotas do que vitórias. Teria assistido de perto, nos jogos de liga, 26 triunfos do lado vermelho, contra 22 dos cidadãos azuis. Posso me recordar mais dos jogadores endiabrados correndo com o sorriso estampado no rosto, do que os de manto celeste.

Bank Street - Primeira arena do United
A coisa ficaria pior ainda quando as pelejas fossem disputadas no campo do United. Mesmo na primeira arena, o pequeno estádio com capacidade para pouco mais de dez mil torcedores chamado de Bank Street, a desvantagem já começava: 6 derrotas em 9 jogos, nenhuma vitória. No entanto, seria quando o Old Trafford, Teatro dos Sonhos, ficasse pronto, que o drama se instalaria. Em 62 partidas, 27 derrotas contra apenas 16 triunfos e 19 empates.
Old Trafford - Estádio do United

Se na Liga as coisas não iam bem, nas copas, me recordaria de bons momentos, como aquele histórico jogo de 75 pelo Quarto Turno da Copa da Liga. O Novembro Milagroso, quando Dennis Tueart, com sua camisa de algodão e golas, marcou duas vezes para construir um placar de 4 a 0 sobre os Red Devils. Que noite sob os holofotes do inverno! Seria um delírio! Com sete vitórias e uma derrota nos últimos seis anos em Old Trafford, me sentiria torcedor de um City que não se podia parar.  

Dennis Tueart, no último grande massacre do City sobre o United antes da Seca de 32 em Old Trafford
Se soubesse do futuro, aproveitaria aquele momento como se aproveita as raspas de bolo que sobram na forma, porque os anos que se seguiriam seriam duros. Para ser mais exato, seriam intermináveis 32 anos sem vencer no território dos Diabos. O Old Trafford se tornaria uma ameaça e uma lenda. Derrotas como o 2 a 0 de 87 e os acachapantes 5 a 0 de 94 – eu teria pesadelos com Eric Cantona e seu companheiro Ryan Giggs por noites e noites –, deixariam seqüelas graves de credibilidade nos fãs azuis.


Auge da Seca de 32 anos do City em Old Trafford = Passeio Endiabrado

Na longa seca, colheríamos apenas algumas vitórias em casa, de resto, pura sofreguidão. Tudo se resumiria ao simples frase: eles venceriam e nós perderíamos. Esse seria o mesmo período em que assistiria, prostrado no sofá de casa, ao United colecionar títulos, como as 12 Ligas Inglesas, totalizando 19; dois mundiais de clubes; 11 Copas da Inglaterra; 4 Copas da Liga Inglesa; e, os tenebrosos, 3 títulos da Liga dos Campeões.

Comemoração da histórica conquista da Champions League de 1999 pelo United
Enquanto o City celebraria em toda história, 2 canecos da Liga Inglesa, 5 taças da Copa da Inglaterra e duas da Copa da Liga Inglesa. Orgulhos de uma nação azul desconfiada.
Se eu fosse esse idoso garoto, precisaria esperar até 2008 para rever um triunfo em Old Trafford, um parco 1 a 2. O suficiente para desentalar o grito entalado muito além da garganta, no fundo da alma.
Uma tragédia.

Que bom que não sou esse garoto e posso desfrutar dos momentos atuais dos Cidadãos Azuis! Que saborosa foi a vitória do último 23 de outubro. Seis tentos celestes contra apenas um vermelho. Super Mário deixou dois (Why always He?) e Silva deu show, Agüero mostrou ser oportunista e Dzeko balançou as redes duas vez. Delírio total! Repetimos a maior goleada do Derby de Manchester, dando ao Teatro dos Sonhos uma reprise do embate de 1926.

Super Mário no massacre de Old Trafford de 2011

Desde a chegada do Xeque Mansour Bin Zayed Al-Nahyan, as coisas estão sob mudança por aqui. O dinheiro traz o bom futebol também para o nosso lado. O livro do derby de Manchester deve ganhar mais páginas azuis. O City vive, talvez, a maior esperança de sua história, o vento gelado do Natal e Ano Novo trouxeram os azuis lideres na Liga e confiantes para os próximos anos. Nem a derrota do último sábado, pela Copa da Inglaterra, dentro de seus domínios, abalou o espírito azul. Com um a menos quase o jogo inteiro e uma incrível recuperação no segundo tempo, os torcedores de celeste saíram do Etihad Stadium fervorosos e cientes de que apoiam um time de guerreiros.
O histórico assustador de domínio vermelho em Manchester, com o United chegando aos incríveis 42% de aproveitamento nos jogos disputados contra o City, com 27%. Deve mudar. Hoje São 68 vitórias endiabradas, contra 44 dos cidadãos. Com os azuis tendo menos triunfos que empates no Derby – que já somam 50 jogos de igualdade.

Se o dinheiro continuar a fluir em azul, as lembranças de um idoso garoto têm grandes chances de se tornarem mais alegres nos próximos 121 anos de rivalidade no clássico mais acirrado de Manchester.


Ciao!

      

3 comentários:

Anônimo disse...

Bom texto, mas uma belissima história que da as caras dentro das linhas desse esporte mágico e sem igual.

Mas tenho uma duvida que perdura nesses casos (tão frequentes na história recente Inglesa) de um time que, lastreado por pelo menos um século de história e acompanhado por uma torcida apaixonada, depende do fetiche meio megalomaniaco de um arabe (sempre eles) pra poder rivalizar com os grandes do país, sendo um time que, independente do que se diga, é montado de ultima hora e, com a quantidade colossal de dinheiro investida, é óbvio que sera um timaço. Mas fica ai a duvida, voces não acham que dói um pouco nos torcedores do city saber que só podem rivalizar com os reds por que os carros do mundo usam gasolina?


Abraços,

Maicol.

10 de jan de 2012 13:55:00
Marcelo Dichtchekenian disse...

Acho que essa sensibilidade só passa na cabeça de quem está vendo tudo de fora.

A partir do momento em que a torcida ta vendo um time que nunca imaginou ver nem no mais otimista dos sonhos, o fato que o time foi formado pelo petróleo desaparece completamente. Imagina o jovem idoso de 121 anos podendo sonhar com anos seguidos de conquistas? Com a possibilidade de bater de frente com todos os grandes da Europa? Esses caras estão vivendo o sonho da vida deles!!

Além disso, enquanto estive em Londres eu conversei com um ou outro cara que torcia pro City e todos disseram a mesma coisa: o dono da grana é ídolo por lá! Mesma coisa com o Abramovich, do Chelsea. A verdade é que torcedor torce pra camisa. Se a camisa está sendo vestida por craques e eles podem sonhar com anos e anos de títulos, eles estão felizes. Imagine você no lugar de um deles.

10 de jan de 2012 14:45:00
Danilo Picucci disse...

Maicol,

creio que não, quando há rejeição da torcida, acaba virando público, como por exemplo o caso do dono do Manchester United, que é um bilionário do qual a torcida Vermelha não gosta.

Veja o exemplo tupiniquim, a torcida do Corinthians ficou bem desconfiada com a entrada da MSI, mas quando começaram a chegar os reforços a torcida só foi lembrar da MSI e do Kia quando começaram a surgir as falcatruas.....

10 de jan de 2012 17:34:00

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